Aspiras ao grande...
ARCORES 2024
“Já haviam colocado meu nome na porta do quarto”
06.02.2024 - 14:57:00 | 3 minutos de leitura

Há pouco tempo um
amigo visitou a comunidade religiosa do Leblon, no Rio de Janeiro e me fez pensar
sobre as coisas pequenas. Por certo, o lema escolhido no ano 2024 para as atividades
pastorais, educativas e solidárias na família Agostiniana Recoleta é: “Você
está aspirando ao grande? Comece pelo pequeno” (Santo Agostinho, Serm. 69,
1,2).
Esse amigo me convidou
a dar um passeio pelo centro do Rio de Janeiro. Enquanto estávamos caminhando e
conversando sobre a beleza da cidade, de repente me disse: “Você sabe que me
senti acolhido em casa quando cheguei ao Rio de Janeiro? Inclusive já haviam colocado
meu nome na porta do quarto”. Nesse momento, pensei: Por que esqueço tantas
vezes de valorizar esses pequenos detalhes? Meu amigo sentiu que antes de
chegar, já era esperado por todos e tratado como irmão. Quantas vezes eu não
prestei atenção a algo tão simples e tão significativo? Nosso passeio continuou
pela cidade e desfrutamos conversando do “divino e do humano”.
Aquele passeio me serviu
para refletir sobre esses pequenos gestos. Comecei a lembrar de muitas pessoas
que faziam “coisas pequenas” pelo bem da comunidade, pelo bem das pessoas ou pelo
bem da sua família. Normalmente, quando essas pessoas já não estão, todos
temos saudades. Mas todas essas atitudes e ações ficam gravadas no coração de
cada um de nós. Esse é o lema deste ano, não é nem simples, nem palavras bonitas.
É algo profundo e transformador.
Por que é profundo
e transformador? Porque
devemos colocar em pratica seu significado espiritual e humano. Por isso, Santo
Agostinho dizia: “Quod minimum, minimum est, sed in mínimo fidelem esse, magnum
est” (De Doctrina Christiana, IV, 35,). É dizer, que as coisas pequenas nos
ajudam a assumir a responsabilidade pessoal e a perseverança. Por isso, devemos
ser fieis em atitudes essenciais como o respeito, a cordialidade, a generosidade,
a honestidade, a paciência e a convivência.
Quando alguém se
compromete com esses valores, é capaz de transformar sua própria vida e a de
quem está ao seu lado. A partir daí já não pensamos em nossas próprias necessidades
senão que pensamos como apoiar e ajudar o outro através dos pequenos detalhes.
O cartaz da proposta pastoral no ano de 2024 representa barcos de papel impulsionados
pelas ondas dessas pequenas virtudes da vida cotidiana.
É curioso como fomos
educados para prestar atenção nas coisas grandes, importantes e notórias da
vida. É difícil não colocar
nossa confiança no dinheiro, na informação, na imagem de nós mesmos ou no
poder, em ter o último aparelho de tecnologia e ter no dia todas as seguranças.
De nada serve tudo isso se não pensamos nas pequenas ações que transformam nossos
lares, comunidades, lugares de trabalho e a nossa Igreja. Para Jesus estava
claro que o pequeno, humilde e imperceptível é o importante. O que começa sendo
pequeno, com paciência e tempo cresce e se multiplica. Um gesto pequeno aparentemente
sem importância, pode fazer uma enorme diferença no futuro. Pode ser a
semente do Reino de Deus.
Gostaria de partilhar
um pequeno poema do Malvi Baldellou. É um chamado a cultivar os valores da discrição,
do oculto e do imperceptível:
“O novo torna-se,
imperceptível.
Um grão de mostarda torna-se
uma árvore que abriga pássaros.
Uma pitada de levedura
faz emergir sua potência e alimenta.
Um gesto silencioso
muda o dia.
Uma pergunta nos desinstala.
Um Sim muda a
história.
Um “eu te amo” sincero
conforta a tristeza e a alegria.
Um sussurro ao ouvido acalma
a tempestade.
Uma boa notícia traz
vida.
Um aroma de jasmim
perfuma a alma.
Um abraço restaura e
convoca para a festa.
Um detalhe faz do amor,
carne.
Uma e todas as vozes,
o Evangelho.
O novo espreita,
imperceptível, ao nosso lado”.